sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O HOJE JÁ FOI ONTEM....

O HOJE JÁ FOI ONTEM

    Há muito que não via a Isabel.  Fui encontrá-la com o moral completamente em baixo.  Perguntei-lhe o que tinha.  Respondeu-me secamente que não tinha nada.  Apenas não estava nos melhores dias e não lhe apetecia ver ninguém.
   Conhecemo-nos há muitos anos.  Não insisti.  Limitei-me a encolher os ombros e a dizer
--Paciência!.. Vinha convidar-te para fazermos umas compras...arejavas, descongestionavas e de caminho lanchava-mos por aí  mas... também não é urgente... fica para a próxima.

--Fico com pena, sabes? mas eu hoje sou uma péssima companhia... não tenho a mínima pachorra para compras!

--Mas podemos lanchar, não?
Tive uma ideia:  vou aqui ao café do lado, trago uns biscoitos, tu fazes um chá e lanchamos aqui, na tua casa,
à vontade, sem pressas e podemos conversar...

... Boa ideia... és uma amigona daquelas...
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    Comprei umas fatias de bolo, uma embalagem do seu gelado preferido.  Entretanto Isabel tinha preparado uns sumos e um chá que estava  delicioso.
    Conversámos sobre cinema, sobre a última peça em cena no Municipal,  modas, trapos, fofoquices e quando as  banalidades se esgotaram senti que ela tinha acalmado e só precisava desabafar com alguém disposto a ouvi-la.
    Não me enganara.
 --Calcula tu que logo de manhã me chateei.... a Ange  ( a filha vais velha da Isabel, 19 anos bonitos e bem feitos de corpo )  mal acordou disse-me que esta semana precisava comprar um vestido que tinha visto numa dada loja.  Era muito bonito, não era caro ( apenas 120 € ) e ela precisava mesmo de o comprar para levar à festa de anos da Mitó, uma amiga da Faculdade.
    Argumentei que não me dava jeito  fazer uma tal despesa e que ela podia levar o vestido verde que só usara uma ou duas vezes.

   Começou a chorar e quando eu lhe disse para não " ser criança " e tentar compreender que há imenso tempo era preciso comprar cortinados novos para a sala, ficou fula...
   Eu, últimamente nem tenho comprado nada.  E sabes qual foi a resposta dela?

-- que tenho eu com isso?  Se não compras é porque não queres.  E depois, bem vistas as coisas, também não precisas muito:  pouco sais!   E a roupa que tens é mais que boa e suficiente até porque já não tens vinte anos e estás em casa...

-- Fiquei furiosa.  Conheces-me bem.  Sabes como fui criada e como tenho agido toda a minha vida..  Quantas vezes me privei de comprar uns sapatos ou uma mala, por exemplo, para lhes dar umas calças modernas... sinceramente, achas que mereço isto?

  Ora, não ligues... ela disse isso por dizer...gaiatas!... no fundo não é isso que ela pensa...

 ---Mas o pior é que ao almoço quando contei ao Zé o que se tinha passado ele riu-se, acabou por achar que a filha tinha razão:  " 20 anos ? tem-os ela agora..."

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---Queres saber uma coisa, Isabel?  Se eu soubesse que esse era o teu problema não tinhamos ficado aqui a lamuriar embora tivesse sido um prazer estarmos juntas e teres desabafado.    Tinha feito exactamente o contrário:  tinha-te arrastado a " vestir uma coisa bonita" a ficares elegante e íamos, não às compras mas a uma sessão de cinema.... E, quando o Zé e a Ange chegassem, iriam ver uma mulher diferente e uma mãe que, apesar de estar em casa a aturá-los não perdeu o hábito de se produzir como sempre fez..

-- Obrigada, amiga...-és única - deste-me uma ideia!  Depois conto-te.

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--Cerca de quinze dias depois, ao fim da tarde, tocaram à campaínha.    Era a Isabel.
--Vinha um espanto fisíca e moralmente,  Em meia dúzia de palavras contou-me tudo.

---Naquele dia adaptei o teu conselho à altura e às circunstâncias.  Esmerei-me menos com o jantar mas arranjei-me.  Pus um vestido bonito, pintei-me, penteei-me com um cuidado especial, pus uns brincos e um colar que o Zé me oferecera pelo Natal e mal usara por falta de oportunidade, tirei o avental e os chinelos
e calcei uns sapatos de salto.

--Quando os meus filhos chegaram reagiram.. O primeiro foi o Rui.  Deu-me o beijo do costume e disse:
---Quem tem uma velhota linda? Quem é ?

---Depois veio veio a Ange. Olhou-me de soslaio e disse:
---Vais sair?
---Não!  Porquê?
---Como estás toda arranjada!....
---Estava de bom humor e apeteceu-me. Há dias assim!...

--Chegou a Nita.  Piscou o olho, apertou o lóbulo da orelha, estalou os dedos e exclamou:
--Gostei!....

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Como de costume o Zé veio tarde..  Quase 21 horas,  Os filhos já tinham jantado.  Não fui abrir a porta como era hábito.  Fiquei sentada na sala a tomar um aperitivo.Olhou para mim meio curioso, meio desconfiado.
---Posso saber onde foi ou vai a minha " linda mulherzinha "  ?
---A lado nenhum... mas se houver por aí um cavalheiro com coragem para me convidar posso ir a qualquer lado...
---Óptima ideia... e se fossemos jantar fora?
---É para já...o comer não se estraga.  Fica para amanhã....

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---Há tanto tempo que eu e o Zé não saíamos assim sós....  Foi bom. Conversámos.  Reencontrámo-nos.
Só te posso dizer que voltámos a ser o que eramos... há anos que andavamos arredados:  ele preso  aos problemas da empresa.  Eu obsecada pela minha profissão, primeiro, e, depois quando decidi ficar por casa
não queria que nada  lhes faltasse,.  Queria ser dona de casa e mãe a 100%, mesmo com prejuízo de mim
própria....
--- Obrigada, Amiga!!!





domingo, 5 de maio de 2013

ERA UMA VEZ UMA VÉLHINHA:::

OLÁ, CHEGUEI...

                             Este espaço foi por mim destinado a compilar muitos contos escritos vida fora.  Dia após dia por esta ou aquela razão fui sempre protelando o ínício da sua actividade.  Mas hoje pensei:  porque não
aproveitar o dia da mãe para "dar à luz" o meu primeiro apontamento?
                             E decidi começá-lo da forma mais tradicional......



                             ERA UMA VEZ UMA VÈLHINHA...
                                                                                        Caminhava eu distraída, rua fora. meditando sobre a razão de ser do Dia da Mãe.    De repente, meus olhos poisaram numa veneranda e negra figurinha.
Pequenina, frágil, cabelo alvejando, gasta, de rosto encarquilhado pelos invernos da vida, olhar seguro de si
e as costas encurvadas pelo peso dos anos...  E o sorriso?  Uma doçura !  Precisavam ver !!...
                                                                                         Seguiamos o mesmo caminho.  Simpática como tantas velhinhas,  meteu conversa comigo.  Talvez tivesse necessidade de alguém que a soubesse ouvir....
Falou-me de três filhos, casados, ausentes.  Migrantes deste mundo enorme.    Dois deles, não é por mal -dizia - são secos, frios, materialistas.
                                                                                         - Feitios ! sempre assim foram de pequenos, meio despegados....
                                                                                         - O terceiro, coitadinho, pode estar onde estiver
mas, no Natal, no Dia da Mãe e no dia dos meus anos nunca se esquece:  um telefonema, um postal, um beijo chegam sempre até mim.   Coitadinho do meu menino...tão bonzinho...tão meu amigo..( havia água nos seus olhos!...)                     Perguntei-lhe com quem vivia:
                                                                                          -Só, desde que enviuvei.  Já me habituei, sabe?
Só tenho medo de uma coisa:   de um dia darem comigo, esticadinha, sabe-se lá há quanto tempo....e isso
eu não queria.  Nunca abandonei ninguém.  Não queria morrer só, como um cachorro...

Animei-a, dizendo-lhe que Deus não iria permitir que tal acontecesse.

Chegáramos ao fim da rua.  Nossos caminhos divergiram.  Não sei quem é esta velhinha.  Talvez a não volte a ver.   Só sei que é mãe!....

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Segui, meditando neste exemplo, um entre tantos.  Pensei agarrar o tema que me caíra assim, do céu aos trambolhões.  Pensei nas contradições desta vida.   Pensei, em quantos filhos que tendo já perdido a sua
mãe, perderam também, definitivamente, a oportunidade de a homenagear, de lhe provar o seu querer...
Para esses, já só resta um pensamento de saudade, uma oração ou uma flor colocada numa campa fria.

Pensei depois em todos os filhos que ainda têm o maior bem do mundo:  a sua Mãe...
Não esperem que ela parta para depois, de lágrimas nos olhos, dizer:
                                                                                                        -- Se ela fosse viva !....
Pensem que este pode ser o último Dia da Mãe  -  vai acontecer a muitos - e deem-lhe a suprema alegria
dum gesto de amor, dum carinho filial, dum beijo, ....dum sorriso...enfim!!!!
                                                                                           
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