O HOJE JÁ FOI ONTEM
Há muito que não via a Isabel. Fui encontrá-la com o moral completamente em baixo. Perguntei-lhe o que tinha. Respondeu-me secamente que não tinha nada. Apenas não estava nos melhores dias e não lhe apetecia ver ninguém.
Conhecemo-nos há muitos anos. Não insisti. Limitei-me a encolher os ombros e a dizer
--Paciência!.. Vinha convidar-te para fazermos umas compras...arejavas, descongestionavas e de caminho lanchava-mos por aí mas... também não é urgente... fica para a próxima.
--Fico com pena, sabes? mas eu hoje sou uma péssima companhia... não tenho a mínima pachorra para compras!
--Mas podemos lanchar, não?
Tive uma ideia: vou aqui ao café do lado, trago uns biscoitos, tu fazes um chá e lanchamos aqui, na tua casa,
à vontade, sem pressas e podemos conversar...
... Boa ideia... és uma amigona daquelas...
.........................................................................................................................................................
Comprei umas fatias de bolo, uma embalagem do seu gelado preferido. Entretanto Isabel tinha preparado uns sumos e um chá que estava delicioso.
Conversámos sobre cinema, sobre a última peça em cena no Municipal, modas, trapos, fofoquices e quando as banalidades se esgotaram senti que ela tinha acalmado e só precisava desabafar com alguém disposto a ouvi-la.
Não me enganara.
--Calcula tu que logo de manhã me chateei.... a Ange ( a filha vais velha da Isabel, 19 anos bonitos e bem feitos de corpo ) mal acordou disse-me que esta semana precisava comprar um vestido que tinha visto numa dada loja. Era muito bonito, não era caro ( apenas 120 € ) e ela precisava mesmo de o comprar para levar à festa de anos da Mitó, uma amiga da Faculdade.
Argumentei que não me dava jeito fazer uma tal despesa e que ela podia levar o vestido verde que só usara uma ou duas vezes.
Começou a chorar e quando eu lhe disse para não " ser criança " e tentar compreender que há imenso tempo era preciso comprar cortinados novos para a sala, ficou fula...
Eu, últimamente nem tenho comprado nada. E sabes qual foi a resposta dela?
-- que tenho eu com isso? Se não compras é porque não queres. E depois, bem vistas as coisas, também não precisas muito: pouco sais! E a roupa que tens é mais que boa e suficiente até porque já não tens vinte anos e estás em casa...
-- Fiquei furiosa. Conheces-me bem. Sabes como fui criada e como tenho agido toda a minha vida.. Quantas vezes me privei de comprar uns sapatos ou uma mala, por exemplo, para lhes dar umas calças modernas... sinceramente, achas que mereço isto?
Ora, não ligues... ela disse isso por dizer...gaiatas!... no fundo não é isso que ela pensa...
---Mas o pior é que ao almoço quando contei ao Zé o que se tinha passado ele riu-se, acabou por achar que a filha tinha razão: " 20 anos ? tem-os ela agora..."
..............................................................................................................................................................
---Queres saber uma coisa, Isabel? Se eu soubesse que esse era o teu problema não tinhamos ficado aqui a lamuriar embora tivesse sido um prazer estarmos juntas e teres desabafado. Tinha feito exactamente o contrário: tinha-te arrastado a " vestir uma coisa bonita" a ficares elegante e íamos, não às compras mas a uma sessão de cinema.... E, quando o Zé e a Ange chegassem, iriam ver uma mulher diferente e uma mãe que, apesar de estar em casa a aturá-los não perdeu o hábito de se produzir como sempre fez..
-- Obrigada, amiga...-és única - deste-me uma ideia! Depois conto-te.
.................................................................................................................................................................
--Cerca de quinze dias depois, ao fim da tarde, tocaram à campaínha. Era a Isabel.
--Vinha um espanto fisíca e moralmente, Em meia dúzia de palavras contou-me tudo.
---Naquele dia adaptei o teu conselho à altura e às circunstâncias. Esmerei-me menos com o jantar mas arranjei-me. Pus um vestido bonito, pintei-me, penteei-me com um cuidado especial, pus uns brincos e um colar que o Zé me oferecera pelo Natal e mal usara por falta de oportunidade, tirei o avental e os chinelos
e calcei uns sapatos de salto.
--Quando os meus filhos chegaram reagiram.. O primeiro foi o Rui. Deu-me o beijo do costume e disse:
---Quem tem uma velhota linda? Quem é ?
---Depois veio veio a Ange. Olhou-me de soslaio e disse:
---Vais sair?
---Não! Porquê?
---Como estás toda arranjada!....
---Estava de bom humor e apeteceu-me. Há dias assim!...
--Chegou a Nita. Piscou o olho, apertou o lóbulo da orelha, estalou os dedos e exclamou:
--Gostei!....
..........................................................................................................................................................
Como de costume o Zé veio tarde.. Quase 21 horas, Os filhos já tinham jantado. Não fui abrir a porta como era hábito. Fiquei sentada na sala a tomar um aperitivo.Olhou para mim meio curioso, meio desconfiado.
---Posso saber onde foi ou vai a minha " linda mulherzinha " ?
---A lado nenhum... mas se houver por aí um cavalheiro com coragem para me convidar posso ir a qualquer lado...
---Óptima ideia... e se fossemos jantar fora?
---É para já...o comer não se estraga. Fica para amanhã....
.....................................................................................................................................................
---Há tanto tempo que eu e o Zé não saíamos assim sós.... Foi bom. Conversámos. Reencontrámo-nos.
Só te posso dizer que voltámos a ser o que eramos... há anos que andavamos arredados: ele preso aos problemas da empresa. Eu obsecada pela minha profissão, primeiro, e, depois quando decidi ficar por casa
não queria que nada lhes faltasse,. Queria ser dona de casa e mãe a 100%, mesmo com prejuízo de mim
própria....
--- Obrigada, Amiga!!!
Sem comentários:
Enviar um comentário