sexta-feira, 6 de junho de 2014

O GALO QUE CANTAVA AMOR


                       Para a Anita, com um apertado abraço, este mal alinhavado conto-relato

   A Anita veio passar as Festas do S. Pedro comigo.  O seu ar de garota atrevida contrastava com a sua maneira de ser, tímida e reservada.      Chegara áquela idade em que as raparigas bonitas interrogam o espelho.    Na sua vida confinada a um lar onde o egoísmo  paterno era rei, não havia um diário intimo, uma confissão de amor, um flirt inconsequente, um ruborizar comprometedor.   Nada.  Só vácuo.  Um vazio  absoluto.      E, no entanto, ela era uma rapariga inteligente, de visões largas, espirito esclarecido, mas, sem jeito, sem egocentrismos, sem falsidades, incapaz de desprezar os meios com que poderia atingir os fins.

     Quando a convidei.duvidava que viesse.  Era tão raro ir a festas.... Mas ela veio e eu queria que levasse boa impressão da minha terra e das suas festas populares, as melhores do sul do país.

     Por onde quer que passassemos o contraste fisionómico era notado.... Anita era pequenina, moreninha de olhos profundos e tristes como uma noite sem estrelas, mas belos como todos os mistérios insondáveis.

     Uma tarde sentámo-nos numa das esplanadas que circundam a Praça da República.   Entre duas bebidas frescas trocavam-se comentários.  Na mesa do lado uma família buliçosa com um ar envernizado, snob, postiço de quem não viveu sempre assim:  era um á vontade afivelado.

      Mais adiante meia dúzia de rapazes da nossa irrequieta geração bebiam e lançavam, entre espirais de fumo, frases soltas, estudadas, para causar bom efeito..

      Entre eles um parecia mais distante.  Fumava distraidamente.  O seu olhar claro, inexpressivo observava-nos.  Notámos o exame.  Ambas tivemos a veleidade de nos supormos o móbil desse exame.
      A certa altura consultou o relógio e num gesto de lânguida impaciência encostou o pulso ao ouvido.
      Levantou-se.  Despediu-se dos amigos.  Ao passar junto da nossa mesa cumprimentou-nos discreta e delicadamente... Correspondemos com um ligeiro inclinar de cabeça.
      Baixou-se e, apanhando qualquer coisa do chão dirigiu-se à Anita
     
      - Pertence-lhe, Menina??
   
      Era uma das minhas luvas que caira sem que eu desse por tal.  Agradeci!  Com passo rápido e seguro vimo-lo afastar-se, entrar num flamante " TAUNUS " e desaparecer a toda a velocidade.

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       No dia seguinte depois do jantar fomos dar uma volta pela feira franca.  Anita queria comprar umas lembranças.   Acercámo-nos duma tenda onde se vendiam bugigangas de barro.   Anita pendia para os bonecos regionais, tão em moda..
        Escolheu uma ceifeira e um campino e preparava-se para adquirir um gracioso galo de rubra crista...

        -  Pelo que vejo, tem bom gosto.  --- Era o rapaz da esplanada  ---- esse galo é lindíssimo.  Se houvesse outro igual comprava-o também... a beleza das cores...a expressão...até parece vivo....que fala..
        - Que canta...quer o senhor dizer!

        - Sim os galos não falam.  Tem razão...parece que canta!
        - E cantam de cor....-  arrisquei e, maliciosa, continuei.  sabem a música toda ...como certas pessoas...

          Anita ao ver-me mergulhar  num jogo de palavras confusas  tentou salvar a situação.

        - Se quer ficar com o galito, fique;  eu...bem...talvez não fosse exactamente o que queria..

         E estendeu-lhe o galináceo.  Para fugir á compra forçada ele decidiu-se:

        - Desculpe.  Não sei quem é.  Nem estou a tentar saber.   Desde que a vi ontem na esplanada não mais a perdi de vista.  Creio que...bem... compreende ?...eu não pretendia comprar o galo mas sim,...(vai perdoar-me? )  abeirar-me de si, gozar a sua proximidade, conhecê-la melhor porque...

          Afastei-me discretamente lendo as frases de alguns azulejos suspensos das traves da tenda e só quando ouvi o quebrar meio oco do barro me voltei.... ainda a tempo de apanhar no ar a última frase:

       -  Sim, acho que...gosto de si!

        Enquanto o galito feito em cacos jazia aos pés de Anita, esta perdera a fala.  Emudecera de tão atrapalhada que ficara.
        A cena tinha o seu quê de comicidade e eu ria satisfeita enquanto ele pagava ...o pobre galo assassinado.  Olhando uma última vez aqueles destroços exclamei entre pesarosa e divertida:
       
         - Este, coitado já não canta mais.
          Foi a Anita que me retorquiu:
         - Quem havia de dizer que...

         Ele completou a frase:
         ......que acabava cantando, para nós uma melodia ....de...amor????

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          Hoje no flamante " TAUNUS " recortam-se dois perfis serenos -- Anita e Luis Paulo.

         Unidos para "todo o sempre" tornam ás nossas festas.  Turistas do sentimento.

        Á sua frente, sempre diante dos olhos, oscila ininterruptamente um lindo galo de barro perpetuando a memória desse outro irmão que no quebrar dos seus cacos tinha uma canção de amor.

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