domingo, 15 de junho de 2014

OS SAPATOS DO CHICO MULATO

                     
                           O dia estava lindo.  Era o grande dia da vila.. Dia de festa para o povo, para aquele belo povo do mar, criado entre ondas e gaivotas, entre nevoeiros e maresia, entre a tormenta e a bonança, entre a vida e a morte.  Aquela  boa gente vivia do mar e para o mar.  Viam-no ao chegar ao mundo e morriam com os olhos na imensidão liquida, profundamente azul.

                            As mulheres temiam-o desde meninas.  Os rapazes sonhavam com o mar sem pensar nas horas más.  A terra era de pescadores.  Gente pobre!     Casas mal construídas.  Algumas eram autênticos crivos por onde o vento assobiava nas longas noites de inverno.

                            Os homens entregavam-se à rude faina da pesca.  Às  companheiras cabia a missão de calcurrear os lugarejos próximos, vendendo o peixe que não consumiam no seu sustento.  Quantas vezes não negariam ao estômago o prazer de saborear um peixe mais " fino ", que a sorte lhe atirava às redes, para o converterem  no dinheiro para comprar uns " trapitos " ou para acorrer a uma aflição.
                             Comiam a sardinha, o carapau e muito era seco, e bem seco, para no inverno enganar o espectro da fome.

                             Foi neste ambiente que se criou o Chico Mulato, assim chamado devido à sua cor  fortemente bronzeada, e que é hoje o protagonista da nossa história.
     
                             Homem rude mas bom, o mar não teve nunca, para ele, segredos. Mantinham longas cavaqueiras durante as quais o Chico monologava com o mar as suas apreensões...as suas alegrias.  Em suma: eram dois bons amigos!

                             Crescera junto ao mar e junto dele pensava morrer.  Desde muito tenra idade caminhava sobre as grossas areias escaldantes que estalavam que ao estalarem sob os seus pés descalços, pareciam saudá-lo com amizade.

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                             Naquele ano, já casado, com dois filhos já casados e com três filhas solteiras, como a faina fora boa, rica em pescado, o nosso amigo Chico conseguira juntar umas " coroas " ..Dizia então a mulher, a tia Rita Carola:

                           - Ó home... Vem aí a Festa...devias comprar uma fatiota nova! ...Essa...tá tã coçada!...tá memo no fio....
                           Ajudavam as filhas:
                           - Compre, pai... e uma gravata tamém...
                           - Isso é lá prós " janoitas" da cedade....  E cá sou do mar...replicava o Chico.
Mas elas tanto fizeram...tanto..disseram..tanto azucrinaram a cabeça que...

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A Festa chegou e com ela o tormento do Chico Mulato.  Acostumado às amplas calças arregaçadas, às camisas de quadrados, ao peito descoberto, não podia o Chico ver-se metido num fato tão bonito.. assim a modos que...ao jeito dos finórios..
                             - E a gravata?   ..que impressão!  Ele nem sabia fazer o nó e sentia-se prezo que nem cão por coleira.  Mas o pior de tudo foram os sapatos....finos...justos.  Ele que quase sempre andara a " pé-de-pombo " não podia aguentar os sapatos de pele, de calfe preto como ele dizia.  Mordiam-lhe - dizia - e as mulheres...riam...
                             - Ai, Chico!  Estás tão bonito!...Assim...inté me apanhavas" oitra " vez na rede....
                             - Nã tá bonito o tê pai...ó Maria?....
                             -  Se tá !  Parece um grande senhor!
E as vizinhas:         - Eh! Ti Chico...vossemecê..inté parece um rapaz novo....  Nã lhe dão mais de 30...

E o Chico ia muito direito, na sua farpela nova, gravata a enforcá-lo...sapatos a comprimirem-lhe os pés:
quase nem sabia andar.
                             Meio vaidoso, meio envergonhado, entrou na tasca do costume.  Abraços...ditos dos camaradas...gracejos....tudo o Chico aguentou com a ajuda duns copinhos do tinto...para ajudar a soltar..
Pouco tempo depois já o Chico resfolegava de calor...e a gravata parece que cada vez apertava mais.

                             Era quase meia noite.   Ti Rita Carola já preocupada...ia disfarçando, e comentando com as filhas:
                             - O vosso pai ia tã bonito que nã o largam...
   
De repente:
                              - Ó home, és a minha vergonha!... Em que estado me apareces?!  Ias tã janota olha como me chegas, agora?!

                              E o Chico Mulato, casaco pendurado no ombro...gravata larga, peito abaixo...camisa esgargalada deixando ver o arcaboiço do seu peito tisnado, explodiu:
                              -Que queres, mulher...já nã podia mais....nã nasci para isto!...

                              Mas o mais cómico é que ainda não me atrevi a contar... è que...bem lá vai!  mas, muito em segredo para ele não ..ouvir..e não ficar zangado.
                              O mais cómico, ia eu dizendo, é que o Chico só trazia um sapato calçado.
                              E...o outro?
                             
                              O outro...vinha na mão....pendurado pelos atacadores....
     

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