quarta-feira, 25 de junho de 2014

UMA LARGADA DE TOIROS DIVERTIDA

HISTÓRIAS QUE O TEMPO ESQUECEU

O relato que segue foi publicado na GAZETA DO SUL de 24 de Junho de 1989

         Foi há mais de trinta anos...

         Estavam no auge as festas de São Pedro consideradas, nessa altura e sem favor, as melhores do sul do país.   Como tantos outros forasteiros eu tinha vindo de longe para passar alguns dias de férias e assistir  aos festejos.  Não queria perder pitada...

         Era o dia grande, o dia do Santo Padroeiro.  Começara logo após a alvorada e o desfile dos gigantones, , com a tradicional largada de touros, um dos pontos altos do cartaz das festas.

         As ruas a partir do cemitério até cerca do Hospital tinham sido intrincheiradas pois a largada ia ter lugar ali, nas imediações do Cine-Teatro.  Tudo a postos. Muito público entusiasta esperava desde as primeiras horas da manhã, empoleirado nas tábuas ou debruçado nas janelas sobranceiras às ruas onde o boi ia evoluir.  Até nos telhados havia gente...

          No céu muito azul o sol brilhava e aquecia a valer.  Incansável na sua tarefa de ganhar a vida dessedentando os sequiosos,  o velho Chico Maravilhas surgiu ao fim da rua, despreocupado, empurran-
do o carrinho e gritando para a malta:

           -  Quem quer gelados?...É fruta ...ó chicalate!....

            Eram os antigos sorvetes vendidos em cones de bolacha, a cinco e dez tostões os mais vendáveis.
Também os havia a vinte e cinco...grandes...saborosos...tentadores...mas esses já eram caros para as magras bolsas dos miúdos daquele tempo.  Cinco tostões ou mesmo dez, sempre se iam arranjando quan-
do mais não fosse surripiados da carteira da mãe;  mas, vinte e cinco...era fogo!...

            Disto resulta que a caixa do dinheiro ficava ao lado das cubas dos sorvetes e estava bem recheada de moedas pretas.

             E o Chico Maravilhas, assim conhecido pelo seu costume de dizer, à laia de pregão:
             - Cá está o Chico e os seus gelados.  Não querem provar estas maravilhas? enquanto ia subindo
a rua, atendendo um, servindo outro e gritando sempre:

              - Quem quer  gelados?   É fruta...ó chicalate...
              Eis senão quando, de repente, um valente toiro aparece vindo de uma das ruas que desemboca-
vam  na Almirante Cândido dos Reis....Uma fracção de segundo deu para o Chico e o toiro, frente a frente,
se encararem meio aparvalhados.     Recobrado da surpresa o Chico...ó pernas, para que vos quero..aban-
dona o carro e salta a trincheira.
             E o boi?
             Sem ligar ao Chico, raspa no chão com a pata, berra com força e investe contra o carro pintado
de bonitas e garridas cores.   O embate foi violento.  O carro desfez-se em pedaços e o toiro, "Garoto" de
seu nome, levantou a cabeça escorrendo sorvete por todos os lados.
           
              No chão, espalhadas na calçada, centenas de moedas pretas desafiavam a cobiça e a valentia dos
miúdos.   Mas, quem se atrevia a ir apanhá-las?  Isso é que era bom!... É o vais!

              Lambendo o focinho onde o sorvete escorria. o "Garoto" sacudia a cabeça, na vertical, de cima para baixo e de baixo para cima....lembrando um actor... no fim dum espectáculo...à espera do aplauso do
público.
              E, uma gargalhada em uníssono eclodiu forte por toda a assistência!........

             

           

Sem comentários:

Enviar um comentário