quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
LEMBRANDO UM NATAL DISTANTE
CARTA PARA A AMÉRICA
LEMBRANDO UM NATAL DISTANTE:
" ......Oito (8) anos se passaram sobre o nosso último Natal em Família. Oito longos anos
que não conseguiram apagar as imagens desses tempos distantes
. Que saudades das chegadas do PAI NATAL!
Os nossos filhos, um pé descalço...outro calçado esperavam na varanda a ordem de avanço
de olhos postos, incrédulos, no vélhinho de brancas barbas que lhes sorria.
Ai como demorava a chegar o momento de desfazer os embrulhos!.....
Papeis bonitos!...Laços coloridos!..Prendas....muitas prendas! Umas melhores,,,outras
piores mas todas com o mesmo " toque de amor"
E depois,a enorme mesa à volta da qual nos reuniamos como uma grande família.
E os doces? E os bolos? E os mimos da época!.....Que cheirinho a sonhos..a filhozes,
a Bolo Rei.....
Nem davamos pelo passar das horas
A cantar,....a pular.....a dançar....a comer e a beber...a noite era um relâmpago. Ninguém
tinha sono. Ninguém desconfiava das partidas feitas a uns e outros...
Tudo isso passou. Os nossos caminhos divergiram: Para si, Amiga,a América longinqua,
lendária...interminável....incógnita!
Para nós a insipidez de um país inerte....meio adormecido.. É verdade. Dois caminhos
opostos a tocarem-se nos estremos...
Para si, o Natal não teria o mesmo sabor as estando as filhas a milhares de quilóme
tros de distância.
Para mim o Natal iria ser mais triste que todos os outros.Por onde se ficavam os sonhos
de um Natal frio, a volta de uma lareira incandescente?.
Tanto sonhei envolver no mesmo abraço pais, filhos e netos e não consegui...Tanto sonhei
ver unida em roda da mesma mesa ou aos pés do Presépio, toda a familia e não consegui!
Egoismo, dissidências...destruiram ilusões, quimeras acumuladas ao longo de tantos anos.
Tanto sonhei dar vida ao Meu-Natal-Sonho, ao Meu -Natal-Desejo..e nada! Ficou consu-
bstanciado em Nada. Só ficou o Meu Natal-Desilusão....
Aqui estamos, pois, Amiga, irmanadas na mesma dor...abraçádas na mesma desesperança.
Um mar imenso nos separa no espaço mas um sentimento profundo de fraternal carinho
nos une sobre esse mar tão grande.
Há muito deixei de sonhar, de fazer planos, de projetar seja o que for. Sai tudo ao contrario
por isso vou vivendo à tona de água ao sabor da corrente, fazendo, dia a dia o que o Temp
consente.
Talvez escreva amanhã. Uma grande carta falando de nós. .dos nossos filhos...de tudo....
de nada.
Ou talvez não! Talvez não tenha tempo...ou disposição...ou coragem........
Quem sabe? Talvez nem escreva para não provocar uma lágrima sentida.
Mas, Amiga, de muitos anos, de sempre, no silêncio das palavras , eu estarei, consigo,
neste Natal que aí vem.
Nota de rodapé:
Esta carta foi escrita no Natal de 1982
Publicada na GAZETA DO SUL
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